06/01/2026

O impacto na vida financeira nas doenças raras: o que os dados já gritam?

O impacto na vida financeira nas doenças raras: o que os dados já gritam? - OPINIÃO - * Por Geisa Luz

OPINIÃO

  • * Por Geisa Luz 

Na comunidade das doenças raras, existe um tipo de cansaço que quase nunca aparece nas campanhas: o cansaço financeiro. Ele não é só sobre “remédios caros”. É sobre a soma silenciosa de gastos que se acumulam por anos: transporte, alimentação fora de casa, adaptações, terapias, faltas no trabalho, perda de renda e dívidas. E sobre a sensação de que, para sobreviver, muitas famílias precisam negociar a própria estabilidade.

A pergunta que eu mais ouço, em diferentes tons, é simples e devastadora:

“Quem paga essa conta?”

A conta não é só médica e no Brasil isso já foi medido

Um estudo brasileiro com 99 famílias de crianças e adolescentes com fibrose cística, mucopolissacaridoses e osteogênese imperfeita, atendidas em hospital de referência no Rio de Janeiro, mostrou números que ajudam a tirar o tema do “achismo”:

  • Custo direto não médico (mediano) para as famílias: R$ 2.156,56 (fibrose cística), R$ 1.060,00 (mucopolissacaridoses) e R$ 1.908,00 (osteogênese imperfeita).
  • Perda de renda: “superou 100%” nas três condições analisadas (na prática: o impacto pode ultrapassar toda a renda familiar disponível).
  • 54% das famílias não recebiam benefícios assistenciais.
  • Estratégias de sobrevivência financeira: 69% recorreram a empréstimos e 22,5% venderam bens para lidar com custos do tratamento.
  • O estudo também relata ocorrência de gastos catastróficos para as famílias investigadas.

Esses dados reforçam uma verdade dura: mesmo quando existe cuidado no SUS, a jornada de uma doença rara frequentemente exige despesas que a família precisa cobrir “por fora”.

No mundo, o padrão se repete: custos altos e risco real de empobrecimento

Em Hong Kong, um estudo com pacientes e cuidadores de doenças raras (106 condições) estimou um custo anual total de US$ 62.084 por paciente, e encontrou catástrofe financeira (catastrophic health expenditure) em 36,3% das famílias no limiar de 10% de gasto do domicílio, além de empobrecimento (impoverishing health expenditure) em 8,8%.

Ou seja: não é “aperto”, é risco estatístico de colapso econômico.

3) A “odisseia diagnóstica” também custa caro (e custa antes do tratamento)

Quando o diagnóstico atrasa, a família paga em dinheiro e em tempo de vida. Um estudo sobre a jornada diagnóstica de casos suspeitos de doença rara (sem diagnóstico confirmado no início) mostrou custos diretos médios de € 26.999, cerca de 7,6 vezes maiores do que controles comparáveis (€ 3.561) (“The cost of the diagnostic odyssey of patients with suspected rare diseases”, 2025).

Isso ajuda a explicar por que tantas famílias descrevem a fase “antes do nome da doença” como uma fase de gastos sem fim e sem direção.

O impacto econômico é gigantesco

Nos EUA, uma análise do impacto econômico de 379 doenças raras estimou um custo total de US$ 997 bilhões em 2019, com composição que mostra como a conta extrapola o hospital:

  • US$ 449 bi em custos médicos diretos (45%)
  • US$ 437 bi em custos indiretos (44%)
  • US$ 73 bi em custos não médicos (7%)
  • US$ 38 bi em custos de saúde não cobertos por seguro (4%)

O recado é claro: políticas focadas apenas no custo do tratamento deixam de fora uma parte enorme do problema.

O que a comunidade de doenças raras espera quando fala de “impacto financeiro”

Quando famílias, pacientes e cuidadores falam sobre dinheiro, raramente o pedido é “privilégio”. É previsibilidade, proteção e dignidade. Na prática, isso costuma se traduzir em cinco expectativas bem objetivas:

O ponto não é “quanto custa a doença rara”, é quem fica com a fatura

Quando a família precisa fazer empréstimo (69%) e vender bens (22,5%) para sustentar cuidado, isso não é um “problema individual”. É um sinal de que a política pública ainda não está cobrindo o que deveria cobrir.

LEIA MAIS AQUI: Cuidado complexo, custo elevado e perda de renda: o que não é raro para as famílias de crianças e adolescentes com condições de saúde raras. Cad Saude Publica. 2019 Sep 9;35(9):e00180218.

Se a comunidade de doenças raras pudesse resumir sua expectativa em uma frase, talvez fosse esta:

“Não queremos heroísmo financeiro. Queremos um sistema que não nos empurre para a dívida para conseguir viver.”

  • * Geisa Luz e Consultora em Doenças Raras | Enfermagem Pediátrica | TEDx Speaker | Docente Adjunto Doutora FAMEMA | Líder GNNRD BRASIL

ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM: https://www.linkedin.com/pulse/o-impacto-na-vida-financeira-nas-doen%C3%A7as-raras-que-os-geisa-luz-xwmif/?trackingId=J63ug9bWTxeMdGZiWd09mg%3D%3D

Fonte https://diariopcd.com.br/o-impacto-na-vida-financeira-nas-doencas-raras-o-que-os-dados-ja-gritam/

Postado Pôr Antônio Brito  

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