OPINIÃO
- * Por Maria Emília Rodrigues
Por muitos anos, eu não compreendi exatamente o que estava diante dos meus olhos, nem dentro da minha própria casa.
Sou esposa de uma pessoa autista e mãe de um filho autista. Antes de qualquer formação ou atuação profissional, foi nessa vivência que comecei a perceber que o mundo não estava preparado para lidar com diferentes formas de existir, sentir e se comunicar. Essa compreensão foi sendo construída aos poucos, entre descobertas, desafios e aprendizados que transformaram a minha forma de olhar para a inclusão.
Hoje, além da experiência pessoal, trago mais de oito anos de atuação na qualificação profissional de jovens e adultos, muitos deles pessoas com deficiência. Nesse percurso, aprendi que a maior barreira para a inclusão raramente está nas pessoas, mas nas estruturas que insistem em funcionar para alguns e não para todos. Essa realidade torna-se ainda mais evidente quando falamos sobre o autismo na vida adulta.
O Brasil começou recentemente a enxergar uma população que sempre existiu. Dados do IBGE mostram que cerca de 2,4 milhões de brasileiros possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, informação registrada pela primeira vez no Censo Demográfico de 2022. Mais do que um dado estatístico, esse número torna visível uma população historicamente negligenciada.
O aumento dos diagnósticos não significa que existam mais pessoas autistas, mas que hoje sabemos reconhecê-las melhor. A ampliação do conceito de espectro, incorporada pelo DSM-5, permitiu identificar pessoas que antes não se enquadravam nos critérios diagnósticos. Como explica a pesquisadora Ginny Russell, da University College London, muitos adultos diagnosticados atualmente sempre foram autistas; o que mudou foi a capacidade da ciência de identificá-los.
Durante muito tempo, o autismo foi associado apenas à infância e a características mais evidentes. Com isso, milhares de pessoas cresceram sem compreender por que se sentiam diferentes. O que era sobrecarga sensorial foi confundido com exagero. O que era dificuldade de interação virou timidez ou desinteresse. O que era necessidade de previsibilidade foi visto como resistência. Sem diagnóstico, adaptar-se tornou-se uma exigência permanente. E essa exigência cobra um preço alto.
Muitos adultos autistas convivem com ansiedade, esgotamento emocional e um persistente sentimento de não pertencimento. Por isso, o diagnóstico tardio representa mais do que um nome para a condição: oferece uma nova compreensão da própria trajetória.
Os reflexos dessa invisibilidade também aparecem no acesso à educação e ao trabalho. Na minha atuação profissional, vejo diariamente pessoas competentes enfrentando obstáculos que nada têm a ver com sua capacidade. Processos seletivos excessivamente centrados em habilidades sociais, ambientes pouco acessíveis e modelos de trabalho inflexíveis acabam excluindo talentos antes mesmo que tenham a oportunidade de demonstrar seu potencial.
Não se trata de falta de capacidade. Trata-se de falta de acessibilidade.
Pessoas autistas frequentemente apresentam habilidades valorizadas em diversas áreas, como atenção aos detalhes, organização, concentração, pensamento lógico e capacidade de identificar padrões. Ainda assim, continuam sendo avaliadas por grande parte das discussões sobre inclusão continua concentrada na infância, como se pessoas autistas não chegassem à vida adulta, ingressassem na universidade, trabalhassem ou constituíssem família.
Mas elas crescem. E chegam à vida adulta carregando potencialidades, além das marcas deixadas por anos de invisibilidade.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que inclusão não acontece apenas pela boa intenção. Ela acontece quando existem condições concretas para sustentá-la. Exige formação de profissionais, adaptação de ambientes, revisão de processos e disposição para reconhecer que a diversidade humana não é exceção, mas parte da realidade social.
Hoje, uma nova geração de crianças autistas cresce com mais acesso ao diagnóstico e à informação. Essas crianças ocuparão universidades, empresas e espaços de liderança. A questão não é se chegarão lá, mas se estaremos preparados para acolhê-las sem exigir que se adaptem a estruturas que nunca foram pensadas para elas.
Como mãe atípica, esposa de uma pessoa autista e profissional que atua há anos na inclusão e na qualificação profissional de pessoas com deficiência, acredito que essa transformação é possível. Ela começa quando deixamos de perguntar se a pessoa está preparada para o mundo e passamos a questionar se o mundo está preparado para acolher a diversidade.
Porque, se o autismo acompanha a pessoa durante toda a vida, a sociedade também precisa acompanhar esse percurso.

(*) Maria Emilia Cervi é palestrante, educadora e mãe atípica. Atua na qualificação inclusiva de pessoas com deficiência e jovens aprendizes pelo Instituto IBGPEX. Graduada em Comunicação Social e pós-graduanda em Neuropsicopedagogia, tem mais de oito anos de experiência em inclusão e acessibilidade. Mãe de duas crianças autistas, dedica-se a fortalecer o protagonismo das pessoas com deficiência na sociedade e no mercado de trabalho.
Fonte https://diariopcd.com.br/o-autismo-cresceu-a-sociedade-nao-acompanhou/
Postado Pôr Antônio Brito



