EDITORIAL DIÁRIO PcD
A Defesa Civil do Estado de São Paulo voltou a emitir alerta para a
possibilidade de eventos climáticos que podem atingir diversas regiões
do estado entre esta quarta-feira e quinta-feira, com previsão de chuva, ventos e condições que exigem atenção da população e dos órgãos públicos.
As equipes estaduais informam que permanecem em monitoramento e
reforçam as orientações preventivas diante do risco de ocorrências
relacionadas ao mau tempo.
Mas, diante de mais um alerta meteorológico, uma pergunta continua sem resposta:
Quem vai resgatar as pessoas com deficiência quando uma emergência acontecer?
Essa é uma realidade que permanece praticamente ausente dos planos públicos de resposta a desastres naturais.
Quando há risco de alagamentos, deslizamentos, enchentes ou
necessidade de evacuação, pouco se fala sobre como serão retiradas
pessoas que utilizam cadeira de rodas, pessoas cegas, surdas, com
deficiência intelectual, autistas, com mobilidade reduzida, idosos e
acamados.
Na prática, os protocolos de emergência continuam sendo planejados
para uma população “padrão”, ignorando que milhões de brasileiros
possuem necessidades específicas durante uma situação de risco.
Parece normal ‘carregar’ alguém no colo e colocar de qualquer maneira em um barco ou uma viatura.
A acessibilidade também salva vidas
Os alertas da Defesa Civil são fundamentais e cumprem um papel
importante na prevenção. Entretanto, emitir mensagens para celulares e
orientar a população a deixar áreas de risco não basta quando parte
dessa população necessita de apoio para conseguir sair de casa ou
acessar um abrigo com segurança.
Uma pessoa surda pode não compreender um aviso transmitido apenas por áudio.
Uma pessoa cega pode encontrar dificuldades para se deslocar em meio ao caos provocado por uma enchente.
Um cadeirante pode ficar isolado se não houver transporte acessível ou equipes preparadas para o resgate.
Um Autista pode sofrer uma intensa sobrecarga sensorial em uma situação de emergência, exigindo uma abordagem específica.
Esses cenários não são hipotéticos. Eles fazem parte da realidade
brasileira sempre que eventos extremos atingem cidades e comunidades.
O Brasil já possui uma solução
O que torna essa situação ainda mais preocupante é que o país já dispõe de uma metodologia voltada ao atendimento das pessoas com deficiência em situações de emergência: o Resgate Inclusivo.
A iniciativa propõe protocolos específicos para planejamento,
evacuação, atendimento e resgate de pessoas com deficiência,
considerando diferentes tipos de limitações e necessidades de apoio.
No entanto, a metodologia ainda é pouco conhecida e não incorporada
pelos órgãos responsáveis pela gestão de riscos e desastres.
Em vez de investir na capacitação das equipes e na adoção de
protocolos inclusivos, o tema permanece distante da maioria dos planos
de contingência municipais e estaduais.
Inclusão não pode parar quando começa a emergência
Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Tornaram-se
cada vez mais frequentes. Os últimos exemplos – acontecidos recentemente
foi o incêndio em um trem metropolitano na capital paulista e o
‘desastre climático’ na região de Ribeirão Preto – interior de São
Paulo.
Mesmo assim, a inclusão continua sendo tratada como um assunto secundário quando se fala em Defesa Civil.
Não basta construir cidades mais resilientes.
É preciso garantir que essa resiliência alcance também quem enfrenta barreiras de mobilidade, comunicação ou autonomia.
A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e a
Lei Brasileira de Inclusão determinam que a proteção e a segurança das
pessoas com deficiência devem ser asseguradas também em situações de
risco, emergências humanitárias e desastres.
Isso significa que acessibilidade, planejamento e protocolos
específicos não representam um diferencial. São obrigações do poder
público.
Um alerta para além da previsão do tempo
Cada novo aviso emitido pela Defesa Civil deve servir não apenas para
orientar a população sobre as condições meteorológicas, mas também para
provocar uma reflexão.
Os alertas estão chegando aos celulares.
Mas os planos de resgate continuam chegando a todos?
Enquanto essa resposta for negativa, milhões de brasileiros com
deficiência permanecerão invisíveis justamente nos momentos em que mais
precisam da atuação do Estado.
O Diário PcD defende que o Resgate Inclusivo
deixe de ser uma iniciativa conhecida apenas por especialistas e passe a
integrar efetivamente as políticas públicas de proteção e defesa civil
em todo o país.
Porque, diante de uma emergência, ninguém pode ficar para trás.
Conheça mais Resgate Inclusivo:
E nasce o Resgate Inclusivo! – https://diariopcd.com.br/e-nasce-o-resgate-inclusivo/
CRÉDITO/IMAGEM: Foto: Carolina Zeni/Divulgação SMS/PMPA
Fonte https://diariopcd.com.br/novo-alerta-da-defesa-civil-em-sp-expoe-velha-omissao-quem-vai-resgatar-as-pessoas-com-deficiencia/
Postado Pôr Antônio Brito