11/06/2026

Copa do Mundo é oportunidade para trabalhar socialização e lidar com frustrações no autismo

Copa do Mundo é oportunidade para trabalhar socialização e lidar com frustrações no autismo

Interesse pelo futebol, troca de figurinhas e atividades temáticas ajudam no desenvolvimento de habilidades sociais; especialistas orientam famílias sobre quebra de rotina e excesso de estímulos

A Copa do Mundo costuma mobilizar emoções, conversas e atividades coletivas em escolas, famílias e grupos de amigos. Para crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse período pode representar tanto desafios relacionados às mudanças na rotina e ao excesso de estímulos quanto oportunidades reais para desenvolver habilidades sociais, comunicação e regulação emocional.

Segundo especialistas do GAIADI – Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil, em Ribeirão Preto (SP), o interesse pelo futebol e pelos eventos ligados à competição pode ser utilizado de forma positiva no cotidiano, desde que as experiências sejam planejadas e respeitem as características de cada criança.

Para a psicóloga Giovanna Bim Sebastiani, eventos de grande mobilização têm potencial para favorecer interações sociais de maneira mais espontânea. “A Copa cria situações em que crianças e adolescentes autistas podem se engajar socialmente a partir de um interesse genuinamente compartilhado, sem que a interação seja o foco explícito da situação. Isso reduz a pressão interpessoal e favorece um aprendizado mais próximo do cotidiano real”, explica.

Ela ressalta, porém, que não existe uma fórmula única. “O espectro autista é heterogêneo, e para muitos jovens esses mesmos eventos representam sobrecarga sensorial e emocional. O que faz a diferença não é o evento em si, mas o uso intencional e planejado dele, considerando o perfil individual de cada pessoa”, afirma.

Interesse em comum favorece interação

Atividades típicas desse período, como colecionar figurinhas, conversar sobre os jogos, participar de bolões ou de ações temáticas nas escolas ou no trabalho, podem criar oportunidades naturais para o desenvolvimento de habilidades sociais.

A aplicadora ABA Marina Matos de Oliveira explica que interesses compartilhados funcionam como uma ponte para a comunicação. “Ao partir de algo que já desperta interesse na pessoa, é possível aumentar o engajamento, fortalecer a motivação e trabalhar habilidades como atenção compartilhada, manutenção de conversas e respeito ao turno de fala. Também é uma oportunidade para estimular a expressão de opiniões, preferências e emoções”, comenta.

Segundo ela, atividades como a troca de figurinhas estimulam iniciativa social, negociação e interação entre pares. “Quando a atividade é significativa e prazerosa, a participação acontece com mais segurança, e isso abre espaço para desenvolver habilidades sociais, comunicação funcional e sentimento de pertencimento”, diz.

Na avaliação de Giovana, essas situações funcionam como verdadeiros roteiros sociais do cotidiano. “Pedir uma figurinha, oferecer outra, negociar uma troca: são sequências simples, mas que treinam iniciação de conversa, reciprocidade e manutenção de tópico de forma contextualizada. O aprendizado em contextos com motivação real tende a ser mais duradouro e funcional”, explica.

Mudanças na rotina exigem atenção

Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo também pode trazer desafios. Horários alterados, suspensão de atividades, comemorações, visitas e ambientes mais movimentados podem gerar ansiedade e dificuldades de adaptação.

“Os desafios mais comuns costumam estar ligados à quebra de previsibilidade. Muitas pessoas autistas se organizam melhor quando a rotina é estável. Mudanças como horários diferentes, viagens, barulho extra e maior movimentação podem gerar ansiedade, irritabilidade e dificuldade de adaptação”, explica Marina.

Além disso, comemorações com sons altos, fogos, telas, músicas e aglomerações podem provocar sobrecarga sensorial. Para Giovana, pequenas estratégias fazem diferença para minimizar esses impactos. “Protetores auriculares, antecipação do ambiente por meio de fotos ou explicações e a existência de um espaço mais tranquilo para pausas podem tornar a experiência muito mais confortável”, orienta.

Aprender a lidar com vitórias e derrotas

As emoções despertadas pela competição também podem ser utilizadas para ensinar tolerância à frustração e flexibilidade diante de resultados inesperados.

“Tolerância à frustração não é algo que se desenvolve espontaneamente. Ela precisa ser ensinada de forma gradual. Antes do jogo, por exemplo, a família pode conversar sobre os diferentes resultados possíveis, inclusive os negativos. Antecipar essas situações reduz o impacto emocional quando elas acontecem”, explica Giovana.

Para Marina, a participação deve acontecer sem pressão e respeitando o ritmo de cada criança. “Nem toda criança vai querer acompanhar tudo da mesma forma, e isso precisa ser respeitado. Quando a participação acontece de forma gradual, com apoio e sem exigência excessiva, a experiência tende a ser muito mais positiva”, afirma.

Segundo as especialistas, quando bem mediada, eventos como a Copa do Mundo podem se transformar em uma oportunidade de conexão, pertencimento e aprendizado emocional. “O mais importante é que esses momentos sejam vividos de forma acolhedora e inclusiva, e não como uma fonte de sobrecarga”, conclui Marina.

Fonte https://diariopcd.com.br/copa-do-mundo-e-oportunidade-para-trabalhar-socializacao-e-lidar-com-frustracoes-no-autismo/

Postado Pôr Antônio Brito 

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