Pessoas com deficiência visual relatam desafios estruturais e apontam demandas ainda não atendidas na maior metrópole do país
A vida em uma grande capital pode ser um tanto quanto desafiadora para as pessoas com deficiência visual, principalmente quando é preciso circular por ruas sem piso tátil, placas informativas em Braille, semáforos sonoros, entre outros recursos que auxiliam no dia a dia. Apesar dos avanços, a cidade ainda necessita de infraestrutura inclusiva suficiente para garantir o direito básico de ir e vir com autonomia, segurança e dignidade a uma parcela significativa da população.
De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no censo de 2010, só na cidade de São Paulo mais de 345.000 pessoas eram cegas ou possuíam baixa visão, cerca de 6,5% da população paulistana que já convivia com falta de acessibilidade para circular entre os bairros. Passados mais de dez anos, e mesmo sem a divulgação de números oficiais atualizados do último censo para a capital, a realidade pouco mudou.
Em São Paulo, existem normas claras de acessibilidade voltadas para pessoas com deficiência visual. Conforme a Lei nº 15.442/2012 (calçadas) e o decreto nº 58.611/2019, a instalação de piso tátil e a padronização das calçadas é obrigatória. Embora exista um manual municipal que define parâmetros técnicos de acesso, a qualidade das calçadas e vias varia muito entre os bairros, onde as condições reais muitas vezes são precárias, com obstáculos, descontinuidade e falta de manutenção, fatores que diminuem a mobilidade de pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida.
Essa diferença fica mais evidente em bairros periféricos, onde grande parcela da população convive com a falta de padronização, transformando assim atividades simples como ir ao mercado, à escola e ao trabalho em um verdadeiro desafio urbano. Beto Pereira, pessoa com deficiência visual, morador do bairro de Santa Cecília , alerta para a falta de uma infraestrutura nesses locais. “Para as pessoas com deficiência visual, sair de casa nunca é simples. Precisamos ficar o tempo todo em alerta, porque a calçada muda e aparecem buracos, postes e degraus sem aviso. Muitas vezes, dá medo de cair ou se machucar. Isso acaba tirando de nós algo básico, que é andar pela cidade com mais tranquilidade e independência.”, lamenta.
Por outro lado, regiões como a de Pinheiros, Vila Mariana, Faria Lima e Av. Paulista apresenta uma infraestrutura de acessibilidade mais desenvolvida, facilitando o deslocamento de pessoas com deficiência visual. Nestes bairros, por exemplo, alguns semáforos possuem botoeiras sonoras com painel de instruções em braille, LED indicativo de acionamento e sinalização sonora com autofalante. Ainda assim, mesmo com estrutura considerada mais adequada, persistem lacunas significativas que comprometem a acessibilidade e segurança.
Silverlei Silvestre Vieira Prof. de Orientação e Mobilidade da Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual ressalta que a estrutura precária de ruas e calçadas mostra como a cidade ainda sofre com a falta de planejamento, dificultando o uso de espaços públicos e comprometendo o deslocamento seguro da população. “A falta de acessibilidade urbana não afeta apenas as pessoas com deficiência, ela também limita o acesso de outros grupos como gestantes, idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida”, comenta. Para a entidade, investir em acessibilidade é uma medida que beneficia a todos, promovendo autonomia e inclusão nos trajetos diários.
O especialista ainda reforça que a acessibilidade urbana deve ser tratada como política pública e não como ações pontuais ou restritas a determinadas regiões. Ampliação de rotas acessíveis, manutenção adequada das calçadas, instalação de sinalização tátil e sonora e fiscalização constante são medidas essenciais para reduzir desigualdades e garantir o direito de ir e vir de pessoas com deficiência visual em todos os bairros de São Paulo.
Enquanto a infraestrutura ideal não se torna realidade, pessoas cegas e com baixa visão seguem enfrentando obstáculos diários para acessar serviços básicos. Tornar São Paulo uma cidade acessível exige planejamento urbano inclusivo, investimento contínuo e compromisso do poder público em ouvir quem convive com essas barreiras diariamente, para que a mobilidade urbana seja um direito garantido a todos.
Sobre a Laramara:
Fundada em
1991 pelo casal Mara e Victor Siaulys, a Laramara é referência nacional
no atendimento a pessoas cegas e com baixa visão, contribuindo de forma
pioneira na promoção da autonomia, educação, formação profissional,
cultura e convivência inclusiva. Ao lado de parceiros e apoiadores, a
associação desenvolve programas inovadores que impactam milhares de
famílias em todo o país.
CRÉDITO/IMAGEM: Divulgação Laramara – pessoa cega caminhando pela cidade com bengala.
Fonte https://diariopcd.com.br/em-sao-paulo-acessibilidade-avanca-em-regioes-centrais-mas-ainda-falha-em-bairros-perifericos/
Postado Pôr Antônio Brito
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