A 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do DF manteve a sentença
que condenou a Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF)
a indenizar passageira por falta de acessibilidade na Estação Central. O
elevador estava inoperante, o que fez com que a autora fosse transportada por terceiros pela escada.
Narra a autora que é pessoa com deficiência usuária de cadeira de
rodas. Conta que, ao desembarcar na Estação Central, o elevador de
acesso ao terminal rodoviário não estava funcionando. Acrescenta que não
recebeu auxílio dos funcionários do réu. Relata que, em razão disso,
precisou da ajuda de terceiros para transpor escadaria comum, o que gerou dor física e abalo emocional.
Os fatos ocorreram em outubro de 2024. Defende que a manutenção do
equipamento é de responsabilidade do Metrô-DF e pede para ser
indenizada.
Decisão do 4º Juizado Especial da Fazenda Pública do DF destacou que as provas do processo mostram que o réu não garantiu acesso acessível e auxílio eficaz à usuária com deficiência.
A magistrada pontuou que “a dor física e o abalo emocional decorrentes
da necessidade de subir escadaria comum por pessoa cadeirante em
ambiente público, sem apoio institucional adequado, excedem o mero
aborrecimento” e condenou o Metrô-DF a indenizar a autora pelos danos
morais sofridos.
O réu recorreu sob o argumento de que os sistemas de acessibilidade
passam por vistorias diárias, manutenções contínuas e revisões
programadas. Acrescenta que os equipamentos são desregulados por atos de vandalismo praticados por terceiros.
Ao analisar o recurso, a Turma observou que o Estatuto da Pessoa com Deficiência “garante as pessoas com deficiências o deslocamento e acesso aos transportes públicos, sem qualquer empecilho ou barreira”.
No caso, segundo o colegiado, o acesso da autora foi impedido porque as
plataformas para cadeiras de rodas não estavam funcionando de forma
regular.
“A falha mecânica no veículo, consistente na inoperância do elevador, constitui fortuito interno inerente ao exercício do transporte de passageiros, e não pode ser utilizado como subterfúgio para afastar responsabilização por falha na prestação de serviços, a teor do que dispõe o artigo 14 do CDC”, afirmou.
Quanto ao dano moral, a Turma observou que ficou demonstrado tanto pelo impedido de embarque e desembarque quanto pelo constrangimento de
se ver transportada por terceiros pela escada. A situação, para o
colegiado, “se revela com potencial de malferir direito da
personalidade” da autora.
Dessa forma, a Turma manteve a sentença que condenou o Metrô-DF a pagar a quantia de R$ 5 mil a título de danos morais.
A recente participação da pesquisadora Tatiana Sampaio no programa
Roda Viva trouxe à tona não apenas o conteúdo científico inovador sobre a
polilaminina, mas também a necessidade de refletirmos sobre a postura e
a forma como tratam profissionais respeitáveis e comprometidos com a
ciência.
Sampaio se apresentou de forma cordial e educada, demonstrando
paciência mesmo diante de perguntas inadequadas, o que suscitou
questionamentos sobre o papel da mídia na representação de cientistas e
do discurso científico. Alguns questionaram se ela não deveria dedicar
mais tempo às pesquisas. Acho que sim, mesmo porque o tempo em que ela
permaneceu na TV Cultura poderia mesmo ter sido dedicado às pesquisas e à
ciência, coisa que ela faz há muito tempo.
Durante a entrevista, notou-se uma abordagem em que buscavam
desvalorizar o trabalho da pesquisadora, utilizando perguntas e
provocações que pareciam mais voltadas para gerar polêmica do que para
contribuir com um debate construtivo.
Essa postura não apenas ofuscou as informações científicas que
poderiam ser compartilhadas, mas também desconsiderou a importância da
pesquisa em um campo que já enfrenta diversos desafios.
Tatiana Sampaio é um exemplo de resiliência e competência em sua área.
Seu comportamento sereno e respeitoso diante das provocações é
admirável, mas é preocupante que a necessidade de manter a compostura
recaia sobre ela, enquanto a responsabilidade de promover um diálogo
produtivo parece ignorada por parte de alguns participantes do programa.
Ernesto Paglia, o moderador, até tentou evitar momentos de desconforto,
mas não teve muito sucesso.
Pesquisadores como Sampaio deveriam ter seu tempo e sua expertise
respeitados, para que possam focar no que realmente importa: a pesquisa e
a busca por soluções eficazes com o tratamento da Polilaminina.
Programas de entrevistas, especialmente aqueles voltados para a
ciência e tecnologia, têm um papel fundamental na promoção do
conhecimento e no esclarecimento de temas importantes para a sociedade.
Ao privilegiar perguntas que não acrescentam ao debate — e que,
muitas vezes, parecem mais sensacionalistas do que informativas — alguns
convidados do Roda Viva falharam em utilizar a oportunidade para o bem
maior.
Em vez de fomentar um diálogo construtivo, a abordagem de alguns
entrevistadores contribuiu para a desinformação e para a percepção
errônea sobre a pesquisa científica.
A mídia tem o poder de influenciar a opinião pública e de moldar a percepção sobre a ciência e seus profissionais.
Quando se dá espaço a entrevistas que não priorizam o respeito e a
seriedade da pesquisa científica, corre-se o risco de alimentar uma
cultura de desconfiança e de desvalorização do trabalho dos
pesquisadores. Essa não é apenas uma questão de respeito individual à
dra Tatiana Sampaio, mas uma questão que impacta a credibilidade da
ciência como um todo.
É essencial que o público e os profissionais da mídia reconheçam o
valor das contribuições científicas e a importância de tratar os
pesquisadores com dignidade e respeito.
Tatiana Sampaio, como uma líder em sua área, deve ser ouvida com
atenção, e suas respostas devem ser exploradas de maneira a enriquecer o
conhecimento coletivo.
Ao invés de provocar polêmicas vazias, o Roda Viva e seus
entrevistadores deveriam se comprometer a fomentar um ambiente de
diálogo construtivo, que valorize o tempo e o esforço de quem dedica a
vida à pesquisa e ao progresso da ciência.
A sociedade merece esse respeito e, mais importante, as pesquisas
precisam do espaço e da seriedade que o compromisso científico exige.
Foto: Nadja Kouchi | Acervo TV Cultura
Abrão Dib é presidente da ANAPcD – Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência
O alarme toca. Pessoas saem rapidamente. Escadas são tomadas por
trabalhadores tentando evacuar o prédio. No meio da movimentação, alguém
fica para trás. Não por falta de vontade. Não por despreparo. Mas
porque o ambiente nunca foi pensado para que aquela pessoa pudesse sair
com segurança.
Essa cena, que pode parecer exceção, é a realidade silenciosa de
muitos trabalhadores com deficiência no Brasil. Empresas cumprem a Lei
de Cotas, divulgam políticas de diversidade e exibem números em
relatórios. Mas há uma pergunta essencial que raramente é feita:
O ambiente de trabalho é seguro para essas pessoas?
É aqui que entra a NR-1 — e é aqui que a inclusão deixa de ser discurso e passa a ser dever jurídico.
Quando a lei existe, mas o risco continua
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estrutura o Gerenciamento de
Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Ela obriga empresas a:
identificar perigos
avaliar riscos
implementar medidas de prevenção
O que muitas vezes não se diz com clareza é que essa avaliação não pode ser genérica. O risco não é abstrato. Ele nasce da relação entre o ambiente e a pessoa que trabalha ali.
Se o trabalhador tem deficiência física, auditiva, visual ou
intelectual, os riscos mudam. E se os riscos mudam, as medidas de
proteção também precisam mudar.
Quando isso não acontece, a empresa cumpre formalidades, mas falha na proteção real.
A segurança como direito fundamental
A proteção da pessoa com deficiência no trabalho não é favor empresarial. É obrigação sustentada por pilares jurídicos sólidos:
Constituição Federal Art. 1º, III — Dignidade da pessoa humana Art. 7º, XXII — Redução dos riscos do trabalho Art. 225 — Meio ambiente do trabalho seguro e equilibrado
Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto 6.949/2009) Determina ambientes de trabalho seguros, acessíveis e inclusivos.
Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) Garante trabalho em ambiente acessível, seguro e com adaptações razoáveis.
Essas normas convergem para uma mesma conclusão: a gestão de riscos deve ser inclusiva.
O trabalhador “padrão” que não existe
Muitos PGRs são elaborados como se todos os trabalhadores tivessem as
mesmas condições físicas, sensoriais e comunicacionais. Esse modelo
ignora realidades diversas e cria uma falsa sensação de segurança.
A NR-1 adota lógica situacional: risco = perigo + exposição + condição do trabalhador.
Quando a condição funcional não é considerada, a análise é incompleta.
Riscos que se tornam invisíveis — até o acidente acontecer
Situações recorrentes mostram como a falta de acessibilidade se transforma em perigo concreto:
Pessoa cadeirante sem rota de fuga acessível
Alarmes apenas sonoros para trabalhadores surdos
Treinamentos de segurança sem recursos de Libras ou materiais acessíveis
Máquinas sem sinalização tátil para trabalhadores com deficiência visual
Mobiliário inadequado gerando lesões ergonômicas
Essas não são questões secundárias. São fatores de risco ocupacional.
O risco que não aparece nas planilhas: saúde mental
Nem todo risco ocupacional é imediato ou visível. A exposição
contínua a ambientes inacessíveis, a dependência constante de terceiros
para tarefas básicas e o medo de não conseguir reagir em situações de
emergência produzem efeitos psicológicos profundos.
Trabalhadores com deficiência relatam:
ansiedade constante em ambientes não adaptados
medo de acidentes em locais sem rotas acessíveis
sensação de vulnerabilidade permanente
desgaste emocional por precisar, repetidamente, solicitar adaptações
Esse cenário gera estresse crônico, esgotamento emocional e
adoecimento psíquico. A segurança do trabalho não se limita à
integridade física.
Os riscos psicossociais e o impacto sobre trabalhadores com deficiência
A própria NR-1 incorporou os fatores psicossociais à lógica de gestão
de riscos ocupacionais. Isso significa que o sofrimento mental
relacionado ao trabalho não é questão periférica — é tema de segurança e
saúde.
Para trabalhadores com deficiência, isso envolve:
ambientes hostis ou capacitistas
exigências incompatíveis com a condição funcional
sobrecarga emocional decorrente de barreiras constantes
pressão para produzir sem adaptações adequadas
A negligência com essas condições pode gerar adoecimento psíquico,
afastamentos e agravamento de quadros clínicos. Ignorar o impacto
psicológico de ambientes não inclusivos é falhar na prevenção.
A participação dos trabalhadores, inclusive daqueles com deficiência,
na identificação de riscos é elemento fundamental da gestão preventiva
prevista na NR-1, pois ninguém conhece melhor as barreiras do que quem
as vivencia. Esse envolvimento não é mera formalidade: trata-se de
instrumento essencial para que a gestão de riscos seja efetiva,
inclusiva e compatível com a realidade concreta do ambiente laboral.
Adaptação razoável é prevenção
A adaptação razoável, prevista na legislação inclusiva, é instrumento
de igualdade material. No contexto da segurança do trabalho, ela
significa:
ajustes físicos no ambiente
comunicação acessível
tecnologias assistivas
treinamentos compreensíveis
sistemas de emergência que combinem sinais sonoros, visuais e táteis
Se o trabalhador não entende o treinamento de segurança, a prevenção falhou. E a falha é institucional.
Capacitação em SST e o dever de acessibilidade nos treinamentos
A NR-1 estabelece regras para capacitação em segurança e saúde no
trabalho, inclusive em modalidades a distância. Essa formação só é
eficaz se for compreensível ao trabalhador.
Isso implica:
materiais acessíveis
recursos de comunicação adequados
ambiente de aprendizagem inclusivo
eliminação de barreiras comunicacionais
Treinamento inacessível é treinamento ineficaz — e, do ponto de vista da segurança, isso representa falha na prevenção.
Quando a inclusão é apenas formal
Cumprir a Lei de Cotas sem garantir acessibilidade real gera uma
situação paradoxal: a empresa contrata, mas expõe o trabalhador a risco
ampliado.
Do ponto de vista jurídico, isso pode ser ainda mais grave do que a
ausência de contratação, pois demonstra ciência da condição da pessoa e,
mesmo assim, ausência de medidas adequadas de proteção.
A inclusão formal, sem segurança efetiva, transforma o ambiente de trabalho em espaço de vulnerabilidade institucionalizada.
O direito de recusa diante de risco grave
A NR-1 assegura ao trabalhador a possibilidade de interromper suas
atividades quando constatar situação de risco grave e iminente à sua
vida ou saúde.
Para pessoas com deficiência, isso pode envolver:
ausência de acessibilidade em rotas de fuga
equipamentos inadequados
mobiliário que cause dor ou lesão
atividades que agravem condição clínica
O exercício desse direito não configura indisciplina, mas medida de autoproteção.
O PGR como instrumento de responsabilização empresarial
O inventário de riscos deve registrar perigos, grupos de
trabalhadores expostos, possíveis danos e medidas preventivas. Se
trabalhadores com deficiência e suas condições específicas não são
considerados, a gestão de riscos é incompleta.
Nesses casos, o próprio PGR pode evidenciar falha na prevenção, servindo como elemento de responsabilização.
Responsabilidade da empresa
Ignorar riscos específicos pode gerar:
responsabilidade civil
responsabilidade administrativa
responsabilidade penal
A existência de uma limitação funcional não reduz o dever empresarial. Amplia o dever de cuidado.
Inclusão é parte da segurança — não tema paralelo
Acessibilidade integra a lógica da prevenção. Um ambiente só é seguro quando todas as pessoas conseguem:
compreender os riscos
acessar meios de proteção
participar dos treinamentos
evacuar em emergências
Quando alguém não consegue, o sistema falhou.
O que precisa mudar
formação de profissionais de SST em acessibilidade
participação de pessoas com deficiência no PGR
fiscalização
informação sobre direitos
A NR-1 estabelece um modelo de prevenção que deve proteger todos.
Quando as necessidades das pessoas com deficiência são ignoradas, a
proteção se torna desigual — e isso pode custar vidas.
Ambientes acessíveis são mais seguros para todos. A acessibilidade amplia a proteção coletiva.
Incluir não é apenas contratar. É garantir segurança, autonomia e dignidade.
Acessibilidade é elemento da prevenção. E prevenção é proteção da vida.
* Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e
sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea
jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”,
citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e
Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como
ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como
palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ.
Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência,
com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
Após morte de ator Eric Dane, o mundo acompanha descoberta que abre caminhos para novos tratamentos e cura da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a terceira doença neuromotora (DNM) mais frequente no mundo e que afeta 15 mil brasileiros
O Instituto Paulo Gontijo (IPG), referência no apoio à ciência e pesquisa sobre Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), anunciou uma descoberta científica inédita que tem o potencial de transformar a forma como a doença é diagnosticada e tratada, liderada pela pesquisadora associada ao instituto, a geneticista Prof. Dra. Helen Cristina Miranda, da Universidade Case Western Reserve (Cleveland-EUA), com colaboração da Profa. Dra. Mayana Zatz, do Genoma USP, do Prof. Dr. Alysson Muotri e do Dr. Miguel Mitne-Neto, pesquisador associado do IPG.
O estudo, publicado na revista EMBO Molecular Medicine, revelou que uma forma rara e hereditária da doença, a ELA8, provocada por mutação no gene VAPB, ativa de forma crônica a chamada Resposta Integrada ao Estresse (ISR). Esse mecanismo celular, que deveria proteger os neurônios, acaba comprometendo a produção de proteínas essenciais e acelerando a degeneração dos neurônios motores.
A inovação do estudo está na prova de conceito: ao aplicar um composto experimental capaz de inibir a ISR, os pesquisadores reverteram danos já instalados em neurônios motores derivados de células-tronco de pacientes. Essa reversão incluiu recuperação da função mitocondrial, responsável pela produção de energia celular e da atividade elétrica dos neurônios.
“Mostramos que neurônios doentes ainda podem ser resgatados. O bloqueio da resposta ao estresse devolveu a eles funções perdidas, o que abre caminho para novas terapias e para a medicina personalizada em ELA”, explica a Dra. Helen Miranda, que vai apresentar o estudo em dezembro, e San Diego (EUA), durante o 36º Simpósio Internacional sobre ELA/DNM, a convite do organizador do evento, a Associação de Doenças do Neurônio Motor, com apoio do IPG.
Para o Dr. Miguel Mitne-Neto, um dos autores do estudo, agora os resultados encontrados precisam ser avaliados em outros sistemas e modelos da doença antes de apontar sua aplicabilidade. “Mas acreditamos que existe um grande potencial, pois a via molecular estudada é comum a outras formas de doenças neurodegenerativas e isso pode constituir um caminho inicial para tal expansão”. Os próximos passos incluem expandir a investigação para outros subtipos de ELA, como os causados pelas mutações em C9ORF72, TDP43 e FUS, além de casos esporádicos, que representam a maioria dos diagnósticos.
Foi no laboratório conduzido pelo neurocientista Dr. Alysson Muotri, diretor do Programa de Células-Tronco e professor da Universidade da Calfórnia, em San Diego (EUA), que a pesquisa da Dra. Helen deu um salto. Junto com Dr. Mitne-Neto, eles foram um dos 300 alunos do mundo inteiro capacitados a reprogramar neurônios utilizando a tecnologia desenvolvida por Muotri. “Fomos os primeiros a reprogramar e produzir neurônios de pacientes com ELA, abrindo caminho para novas descobertas . O estudo da Dra. Helen é bem relevante, porque revela nova janela terapêutica. É mais um tijolo na parede do conhecimento”, explica.
Mitne aponta ainda que este estudo faz parte de um processo maior de evolução nos métodos diagnósticos, especialmente para as formas genéticas, nos últimos 20 anos. Segundo ele, a capacidade de avaliar grandes segmentos do genoma humano trouxe não apenas a identificação de novas formas da ELA, como se traduziu em ferramentas de aplicação diagnóstica na prática. E a melhor caracterização dos pacientes permite um direcionamento específico de seu tratamento.
Futuro
E a tendência é que o avanço seja ainda mais rápido nos próximos 20 anos, por conta da apuração de novos modelos para a doença. “Até poucos anos atrás, os modelos animais, que apresentam diversas limitações, eram a principal ferramenta de avaliação da doença, fora do paciente. O advento de tecnologias como a reprogramação celular permitiu que neurônios de pacientes com ELA fossem estudados em laboratório, permitindo uma melhor caracterização das alterações moleculares iniciais, além de expandir a quantidade de moléculas a serem testadas para reversão dessas modificações”, explica Mitne-Neto.
É no que também acredita Dr. Alysson. Criador dos minicérebros – organoides cerebrais criados com as chamadas-tronco reprogramadas de pacientes – ele acredita que a capacidade de observar a progressão de doenças em um ambiente controlado e em tempo acelerado permite uma compreensão mais profunda dos mecanismos moleculares e celulares por trás de condições como o Alzheimer, Parkinson, ELA e autismo, o que vai acelerar a descoberta de curas e tratamentos mais eficazes. “Sabemos que o tempo da ciência não é o tempo da pessoa afetada pela doença – seja paciente, seja familiar – mas é importante que confiem na ciência. Estamos fazendo algo seguro, sem atalhos, que vai trazer resultados fantásticos ainda nesta geração.
Para o Instituto Paulo Gontijo, a descoberta reforça a relevância da ciência brasileira no cenário internacional. “Trata-se de um marco científico que oferece um alvo para novos fármacos e ensaios clínicos. Essa pesquisa pode mudar o futuro do diagnóstico, do desenvolvimento de medicamentos e até abrir caminho para a tão sonhada cura da ELA”, afirma Silvia Tortorella, diretora executiva.
Em seu início, o estudo teve o suporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio de bolsa de iniciação científica (20024 e 2005) e de doutorado (2006 -2011) concedidas ao Dr. Mitne-Neto).
Sobre o Instituto Paulo Gontijo (IPG)
Sediado na capital paulista, o Instituto Paulo Gontijo é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que atua há 20 anos como referência em conhecimento e pesquisa científica nas áreas da ciência, e tem como missão desenvolver programas e projetos de apoio científico e de humanização, disseminando informações para melhorar a qualidade de vida das pessoas com doenças neuromusculares, além de qualificar a rede de atendimento interdisciplinar e congregar investimentos para buscar a cura destas doenças. Desde 2007 a entidade promove anualmente o PG AWARD, uma premiação internacional destinada a cientistas de todo o mundo que dedicam seu conhecimento em prol da pesquisa sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Neste período já teve quase 200 teses inscritas, de pesquisadores de todo o mundo. Neste ano o PG Award está em sua 17ª edição.
Matéria originalmente publicada pelo Diário PcD em 29/09/2025
Treino da Seleção Brasileira de futebol de cegos no CT Paralímpico, em São Paulo | Foto: Alessandra Cabral/CPB.
O Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, recebe entre
sexta-feira, 20, e quinta-feira, 26, a primeira semana de treinamento da
Seleção Brasileira de futebol de cegos em 2026. Ao todo, 14 atletas
foram convocados para as atividades na capital paulista.
O objetivo da etapa de treinos é preparar a equipe para a temporada
de competições, sendo a principal delas a Copa América da IBSA, que será
realizada em São Paulo, entre os dias 3 e 13 de setembro.
A
atriz com síndrome de Down, Pietra Silvestri, protagonizou um ensaio
fotográfico em Roma, usando a moda como linguagem para promover a
inclusão e a diversidade.
Ela
é de Curitiba/PR e foi para Roma, na Itália para ser fotografada. A
atriz e influenciadora digital Pietra Silvestri protagonizou um ensaio
fotográfico que ultrapassa os limites da estética.
Convidada
pelo fotógrafo italiano Emanuele Tetto, criador do projeto Raccontami, a
brasileira com síndrome de Down, autismo e deficiência auditiva usou a
moda como linguagem para ocupar espaços e transformar sua imagem em
narrativa social.
O
encontro aconteceu em outubro último, em um local simbólico da capital
italiana - La Terrazza del Pincio, entre a Piazza di Spagna e a Piazza
del Popolo. Uma equipe multiprofissional com maquiadora, figurinista,
iluminador e assistente - todos reunidos de forma voluntária - foi
reunida num ensaio programado com carinho para ela.
O ensaio será incorporado à série “Raccontami” (“Conte-me”, em tradução livre), que retrata histórias de vidas reais.
A
lente do fotógrafo italiano se volta para temas como deficiência,
bullying, distúrbios alimentares, depressão, fragilidades familiares -
tudo aquilo que, segundo ele, o mundo tenta esconder.
Para
a mãe de Pietra, Noemi Rebello, o ensaio é uma extensão do trabalho que
a filha realiza há anos e é um percurso de afirmação da diversidade.
Pietra
é a primeira atriz brasileira com síndrome de Down a obter registro
profissional (DRT) oficial em escola pública, aprendeu a Língua
Brasileira de Sinais (Libras), é voluntária em diversas ações de
inclusão e acessibilidade do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná e
cursa Cinema na Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e Libras na
Uníntese.
Também
é presença constante em campanhas publicitárias, curtas e longas
metragens, teatro e redes sociais, onde reúne mais de 1,5 milhão de
seguidores.
Em
2025, seu trabalho foi reconhecido nacionalmente com a indicação entre
os Top 10 do Prêmio iBest na categoria Diversidade e Inclusão, além de
ser finalista do Prêmio do TSE como Eleitora Comprometida.
Para conhecer mais o trabalho da atriz clique no link do Instagram: @pietra.silvestri
Primeiro livro de 2081 XRAM, do mentor e palestrante Fabiano D’Agostinho, será lançado em São Paulo no dia 3 de março
A humanidade se vê diante de um dilema: como evoluir com a tecnologia
neutralizando seus impactos adversos? Essa é a reflexão a que nos
convida uma nova obra do mentor, palestrante e executivo, Fabiano
D’Agostinho: 2081 XRAM. O lançamento do primeiro volume, O Livro do Renascimento, acontece em 3 de março em São Paulo.
Esta primeira parte de 2081 XRAM é inspirada na própria
trajetória de D’Agostinho, paralelismo que, por si só, representa a era
de multiversos em que hoje nos encontramos. O enredo ficcional do livro
funciona como releitura da realidade vivenciada pelo autor, enriquecida
por um direcionamento filosófico sobre questões universais.
A ficção literária, afinal, é uma excelente maneira de refletir sobre
acontecimentos presentes para, a partir deles, projetar fenômenos
futuros e pensarmos sobre os rumos das sociedades. Foi assim, por
exemplo, com o livro 1984, publicado pelo britânico George Orwell em 1949 e que antecipou questões contemporâneas como o uso de telas e as fake news. Não por acaso, o clássico de Orwell influenciou D’Agostinho na idealização de 2081 XRAM.
Filosofia, propósito e análise social são trilhas convergentes na
história do escritor, mentor e palestrante. Aos 22 anos, D’Agostinho,
então tecnólogo em elétrica, abdicou de um cargo de liderança e superou
severos desafios financeiros para realizar o sonho de estudar no
exterior, onde cursou Administração de Negócios e Gerenciamento de
Projetos na UC Berkeley (EUA). Aos 26, sua vida tomou um rumo inesperado
ao ser vítima de um tiro que o deixou paraplégico.
A experiência traumática é descrita por D’Agostinho como um
renascimento. A partir dele, passou por um processo de ressignificação,
autodescoberta e superação, que incluiu uma peregrinação de 220
quilômetros pelo Caminho de Santiago de Compostela em cadeira de rodas.
Esses pontos da jornada pessoal do autor levaram à metodologia que criou
para guiar outras pessoas por meio de sua mentoria.
Em 2081 XRAM – O Livro do Renascimento, o personagem Orlando
passa por provações semelhantes às enfrentadas por D’Agostinho. O
leitor se depara, em meio às dificuldades impostas pela trama, com uma
visão otimista sobre o futuro e o potencial humano de transformação, em
que aprendizados de gerações passadas ajudam a moldar o presente e o
amanhã.
É nesse cenário ficcional que se abrem análises e considerações sobre
temas contemporâneos primordiais, como a luta contra o capacitismo e a
adoção da ética no uso da inteligência artificial (IA). Para o último
volume da obra, 2081 – A Lei da Verdade, o autor projeta a
viabilização de um novo modelo social e econômico que garantirá evolução
pessoal e profissional, diversidade, equidade, inclusão,
sustentabilidade e dignidade para todos os habitantes do planeta.
D’Agostinho sustenta que é preciso renascer para buscar ferramentas de transformação da realidade. “Como
poderia uma pessoa, como é o caso do personagem Carlo Legens, ser
responsável por criar um novo e revolucionário paradigma social, sem que
tivesse uma visão diferenciada do mundo?”, questiona. Tal
sensibilidade perceptiva surge para Carlo ao longo de sua vivência com
seu pai, Orlando, cuja trajetória foi inspirada na vida do autor: ambos
ressignificam suas vidas em um contexto imposto pela deficiência
física. “Carlo cresce vendo a dura realidade enfrentada pelo pai, imposta pela sociedade pouco inclusiva e desrespeitosa”, diz. “Isso
faz com que ele tenha uma consciência diferenciada da realidade, o que o
levará a sentir a necessidade de mudar esse cenário, que parece piorar
por conta da tecnologia.”
Assim, para D’Agostinho, a construção de um novo modelo que una
inteligências – humana e artificial – em favor do bem comum da espécie
requer confluência de caminhos rumo a um objetivo compartilhado. Tal
ponto de vista se fortaleceu ao percorrer o Caminho de Santiago.
“Não é sobre chegar antes dos outros, é sobre chegar e fazer com
que os outros cheguem também. Não é sobre ultrapassar para chegar
primeiro e se sentir vitorioso. Não é uma competição. É uma jornada de
evolução, consciente, sustentável. Que envolve legado e transcendência.
Tudo isso tem a ver com solidariedade, inteligência, bondade e, acima de
tudo, ética”, afirma.
A obra 2081 XRAM se propõe a abrir as portas para essa percepção.
Segundo D’Agostinho, não se trata de uma ficção sobre inteligência
artificial, mas sobre a capacidade e inteligência humana: “É sobre
preservarmos nossa essência e valorizarmos nosso potencial, usando a
tecnologia para ampliar o que temos de melhor, não o contrário. Não é
uma ficção sobre robôs, mas sobre o coração humano. É sobre nos
tornarmos quem podemos, e quem devemos ser, como seres genuinamente
humanos. É sobre o mundo que queremos no futuro e o que deixaremos para
as futuras gerações”, conclui.
Serviço
Lançamento de 2081 XRAM – O Livro do Renascimento, de Fabiano D’Agostinho
Quando: 03 de março de 2026, das 18h30 às 22h
Onde: Livraria Travessa Shopping Villa Lobos – av. Dra. Ruth Cardoso,
4.777 – segundo piso – Jardim Universidade Pinheiros, São Paulo, SP
Sobre Fabiano D´Agostinho
Fabiano D’Agostinho é escritor, mentor, palestrante e executivo com
mais de 23 anos de experiência em tecnologia, operações e gestão de
projetos no Brasil e nos Estados Unidos. Técnico em Eletrônica pela ETEC
Getúlio Vargas, graduado em Tecnologia Elétrica pela Universidade
Mackenzie e pós-graduado em Administração de Marketing pela FAAP,
complementou sua formação em Administração de Negócios e Gestão de
Projetos na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Construiu uma carreira sólida gerenciando operações complexas e
equipes multidisciplinares em organizações como Questus, AgênciaClick
Isobar — uma das maiores agências de publicidade digital do país —, onde
atuou como VP de Tecnologia e Projetos, e Dentsu, um dos maiores grupos
de comunicação do mundo, onde se destacou como CTO LATAM.
Atualmente, é COO de uma empresa do setor de construção civil e atua
como advisor, conselheiro e consultor estratégico pela ViaPró,
auxiliando empresas consolidadas e startups a aprimorarem resultados
operacionais, governança e impacto social.
É autor da obra 2081 XRAM, cuja primeira parte é inspirada em sua
trajetória pessoal, propondo uma releitura ficcional da realidade
vivenciada pelo autor e estabelecendo um paralelismo com a era dos
multiversos para oferecer reflexões filosóficas sobre questões humanas
universais.
Paraplégico desde os 26 anos, após sobreviver a um tiro, Fabiano
transformou sua história de superação em uma metodologia própria de
mentoria, focada na ressignificação de desafios e no desenvolvimento do
potencial humano, inspirando pessoas a evoluírem e líderes a promoverem
mudanças positivas e sustentáveis.
Vitoria Machado durante competição de snowboard na Áustria | Foto: Divulgação / FIS
O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e a Confederação Brasileira de
Desportos na Neve (CBDN) informam nesta quarta-feira, 18, o recebimento e
aceitação de convite nominal enviado pela Federação Internacional de
Esqui e Snowboard (FIS), em conjunto com o Comitê Paralímpico
Internacional (IPC, em inglês), à atleta Vitória Machado, representante
do snowboard, para a disputa dos Jogos Paralímpicos de Inverno 2026. A competição acontece entre 6 e 15 de março, em Milão-Cortina, na Itália.
Com isso, a delegação brasileira na Itália amplia o recorde de participantes
nos Jogos de Inverno, com oito representantes. A maior delegação até
então foi a de Pequim 2022, com seis atletas. Até o momento, o melhor
desempenho do Brasil foi a sexta posição na prova de 15km do esqui
cross-country, com Cristian Ribera, em PyeongChang 2018.
A gaúcha Vitória Machado, 21, teve contato com o esporte desde muito
jovem, com passagem por diversas modalidades, incluindo a patinação
artística, que foi a porta de entrada para o snowboard. Entre suas
conquistas, estão duas medalhas de ouro na Copa Europeia de banked
slalom nos anos de 2025 e 2026. Ela é a segunda atleta do Brasil a ser
convocada para competir no snowboard.
Além de Vitória, vão compor a delegação brasileira em Milão-Cortina:
os paulistas Wellington da Silva, Elena Regina e Guilherme Cruz Rocha, a
paranaense Aline Rocha, o rondoniense Cristian Ribera, e o paraibano
Robelson Lula – todos do esqui cross-country, e o gaúcho André Barbieri,
também do snowboard.
Os critérios de concessão de convites do IPC consideraram aspectos
como a pontuação dos atletas nos rankings da FIS ou da IBU (União
Internacional de Biathlon) e a classe funcional, com enfoque nas classes
baixas, caracterizadas por maior comprometimento físico-motor.
Além disso, considerou-se a necessidade de garantir número suficiente
de competidores para viabilizar as provas previstas no cronograma dos
Jogos, bem como ampliar a diversidade de gênero da equipe contemplada.
Milão-Cortina 2026 marcará a quarta participação do Brasil nos Jogos Paralímpicos de Inverno.
A estreia ocorreu em 2014, em Sochi, na Rússia, com dois atletas.
Quatro anos depois, em PyeongChang, na Coreia do Sul, a delegação
brasileira contou com três representantes. Já em Pequim 2022, o país
teve sua maior missão até então, com seis atletas.
Em termos de resultado, o melhor desempenho do Brasil até o momento foi a sexta posição na
prova de 15km do esqui cross-country, com Cristian Ribera, em
PyeongChang 2018. Este também foi o ano em que o país contou com a
primeira participação feminina – Aline Rocha, que mais tarde, em Pequim
2022, conquistou um inédito sétimo lugar na prova longa de
cross-country.
Na estreia brasileira em 2014, em Sochi, na Rússia, dois paulistas
representaram o país: André Cintra, no esqui alpino, e Fernando Aranha,
no esqui cross-country. André ficou na 26ª colocação na prova de
velocidade de sua modalidade, enquanto Fernando não avançou às finais no
1km de velocidade, na prova de sprint; nos 10km sentado ele ficou em
21º; e nos 15km sentado, em 15º.
Programa Loterias Caixa Atletas de Alto Nível
Os
atletas Guilherme Cruz Rocha e Robelson Lula são integrantes do Programa
Loterias Caixa Atletas de Alto Nível, programa de patrocínio individual
da Loterias Caixa e da Caixa que beneficia 148 atletas.
Time São Paulo
Os atletas Wellington da Silva,
Cristian Ribera e Elena Regina integram o Time São Paulo, parceria entre
o CPB e a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência
de São Paulo, que beneficia 155 atletas.
Assessoria de Comunicação do Comitê Paralímpico Brasileiro (imp@cpb.org.br)
As
imagens foram feitas durante a presença de Eduardo Paes nos camarotes
da Sapucaí durante o carnaval. Ele parece ‘brincar’ e ‘zombar’ das
pessoas com deficiência visual. Prefeitura não se manifesta sobre as
imagens
Horas após o fim dos desfiles das Escolas de Samba no Sapucaí, quem
ocupa as redes sociais nesta quarta-feira, 18, é Eduardo Paes, prefeito
do Rio de Janeiro.
Imagens feitas em dos camarotes da Marquês de Sapucaí, mostra Paes
segurando um objeto simulando uma bengala e utilizando óculos escuros
enquanto dança e brinca. Ao fim da gravação, uma mulher parece tirar o
objeto da mão do prefeito ao vê-lo sendo filmado.
Após a divulgação das imagens, a repercussão gerou revolta e indignação no segmento da pessoa com deficiência em todo o Brasil.
Luciana Trindade, Coordenadora do PSB Inclusão Nacional, escreveu que
“o vídeo do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, fingindo ser uma
pessoa com deficiência visual “não é uma brincadeira. É sintoma. Quando
uma autoridade pública simula uma deficiência, ainda que sob o argumento
de ‘conscientização’, a mensagem que passa é perigosa: transforma uma
experiência estrutural de exclusão em encenação momentânea. A
deficiência não é algo que se veste por alguns minutos e se retira ao
final da gravação. Ela atravessa trajetórias, limitações impostas pelo
ambiente e, principalmente, a omissão do poder público”.
“Esse ato não é apenas uma brincadeira de mau gosto. É uma
demonstração de desrespeito, preconceito e insensibilidade diante de uma
parcela da população que já enfrenta diariamente enormes desafios para
conquistar dignidade, inclusão e respeito. Quando uma autoridade
pública, que deveria ser exemplo de empatia e responsabilidade, se
comporta dessa maneira, o impacto é devastador. Ele reforça estigmas,
banaliza o sofrimento e fere a luta histórica das pessoas com
deficiência por reconhecimento e igualdade”, escreveu Alberto Ferreira
de Brito – pessoa com deficiência visual e participante de Conselhos na
Grande São Paulo.
Para Geraldo Nogueira, Diretor da Pessoa com Deficiência na OAB-RJ,
“não me indigna pela imitação em si; poderíamos até recorrer à máxima:
“falem mal, mas falem de mim” ou, em tom mais irônico, “imitem mal, mas
ao menos lembrem de nós”. O que realmente preocupa, porém, é a ausência
histórica de prioridade com relação às pessoas com deficiência na gestão
municipal. Ao longo dos anos em que esteve à frente da Prefeitura do
Rio, não se consolidou uma política pública robusta e estruturante
voltada à inclusão das PcD.”
“O capacitismo realmente rompe barreiras. Pessoas ocupam vagas de
estacionamento, cometem agressões verbais e capacitismo em pleno horário
nobre da televisão brasileira, mas parece que tudo isso é apenas uma
brincadeira. Quando esse tipo de ‘agressão’ vem de uma personagem
pública, prefeito de uma capital, demonstra como as pessoas com
deficiência são desrespeitadas em nosso Brasil”, comentou Abrão Dib,
presidente da ANAPcD – Associação Nacional de Apoio às Pessoas com
Deficiência.
Eduardo Paes e Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro não se manifestaram sobre as imagens divulgadas nas redes sociais.
Quando o processo ignora o laudo que nunca foi feito
Todos os dias, pessoas com deficiência entram no sistema de justiça
brasileiro sem que ninguém saiba que elas têm uma deficiência. Não
porque escondem, mas porque nunca foram diagnosticadas formalmente. E o
Judiciário, sem perceber essa invisibilidade, decide como se estivesse
diante de pessoas neurotípicas, sem qualquer adaptação processual ou
consideração sobre suas necessidades específicas.
O resultado é uma justiça que, mesmo bem-intencionada, produz decisões inadequadas e, por vezes, profundamente injustas.
O Problema Invisível
A questão não é que o Judiciário negue direitos às pessoas com
deficiência. O problema é mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: o
sistema decide sem saber que a deficiência existe.
Imagine uma mãe com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não
diagnosticado disputando a guarda de seus filhos. Suas dificuldades de
comunicação social, sua necessidade de rotina, sua sensibilidade
sensorial — tudo isso pode ser interpretado pelo juiz como frieza
afetiva, rigidez excessiva ou até negligência. Sem o laudo, não há
contexto. Sem contexto, não há compreensão. Sem compreensão, a decisão
pode destruir vínculos familiares fundamentais.
O mesmo acontece com adolescentes com TDAH em processos de medidas
socioeducativas, com vítimas de violência doméstica que apresentam
sintomas de trauma complexo, ou com candidatos à adoção que enfrentam
barreiras invisíveis por não conseguirem ‘performar’ a estabilidade
emocional esperada em avaliações psicossociais.
Por Que Isso Acontece?
A ausência do diagnóstico formal tem múltiplas causas:
Falta de acesso à saúde: Grande parte da população
não tem acesso a profissionais especializados capazes de diagnosticar
deficiências invisíveis, especialmente transtornos do
neurodesenvolvimento, transtornos psiquiátricos ou deficiências
intelectuais leves.
Estigma e desinformação: Muitas famílias evitam buscar diagnóstico por medo da discriminação ou por desconhecerem os sinais de deficiências não visíveis.
Diagnóstico tardio: Especialmente em adultos, muitas
deficiências passam despercebidas durante toda a vida escolar e só se
tornam evidentes em situações de estresse extremo, como um processo
judicial.
Ausência de triagem processual: O sistema de justiça não possui mecanismos rotineiros de identificação de possíveis deficiências em partes ou testemunhas.
Impactos Concretos
As consequências dessa invisibilidade atravessam diferentes áreas do Direito:
Direito de Família: Pais com deficiências não
diagnosticadas podem perder a guarda ou ter visitação restrita baseada
em comportamentos mal compreendidos. Candidatos à adoção podem ser
rejeitados por não atenderem padrões neurotípicos de avaliação.
Violência Doméstica: Vítimas com deficiências
cognitivas ou transtornos psiquiátricos podem ter sua credibilidade
questionada ou não receberem as medidas protetivas adequadas porque seus
relatos são inconsistentes — exatamente como esperado em quadros de
trauma ou deficiência intelectual.
Justiça Juvenil: Adolescentes com TDAH, TEA ou
deficiência intelectual leve podem receber medidas socioeducativas mais
severas porque suas dificuldades de compreensão de normas sociais ou
controle de impulsos são interpretadas como má-fé ou periculosidade. Um
adolescente com deficiência intelectual não identificada pode ser visto
apenas como ‘indisciplinado’ ou ‘agressivo’, quando na verdade está
reagindo a uma situação que não compreende.
Direito Penal: Réus com deficiências não
identificadas podem ter sua capacidade de compreender o processo
comprometida, sem que recebam as garantias processuais previstas na Lei
Brasileira de Inclusão (LBI).
Isso não acontece por descuido individual de um juiz, promotor ou defensor. O
problema é estrutural. O sistema de justiça foi organizado para decidir
com base no que está formalmente comprovado nos autos, mas não foi
estruturado para identificar deficiências que nunca foram
diagnosticadas. Quando saúde, assistência social e justiça não se
conectam, a deficiência invisível continua fora do processo — e a
decisão sai incompleta. Não estamos diante de má-fé, mas de uma lacuna
institucional que precisa ser reconhecida e enfrentada como questão de
política pública.
O Que Precisa Mudar
A solução não é simples, mas é urgente. Precisamos de:
1. Capacitação de operadores do Direito: Juízes,
promotores, defensores públicos e advogados precisam ser treinados para
reconhecer sinais de deficiências invisíveis e saber quando solicitar
avaliações especializadas.
2. Protocolos de triagem: Estabelecer mecanismos de
identificação precoce, especialmente em casos sensíveis como guarda,
violência doméstica e justiça juvenil.
3. Equipes multidisciplinares acessíveis: Ampliar a
presença de psicólogos, assistentes sociais e médicos nos fóruns, com
autonomia para sugerir avaliações quando necessário.
4. Parcerias com a saúde pública: Criar fluxos entre Judiciário e rede de saúde para diagnósticos em tempo processual adequado.
5. Inversão do ônus da prova: Em casos de suspeita
de deficiência, o sistema deveria presumir a necessidade de
investigação, não exigir que a parte vulnerável prove sua própria
vulnerabilidade.
Justiça para Quem?
A invisibilidade da deficiência no processo judicial não é um
problema menor. É uma questão de acesso à justiça em seu sentido mais
fundamental. Justiça não é apenas aplicar a lei. É compreender quem está diante dela. Quando
o Judiciário decide sem saber que está diante de uma pessoa com
deficiência, está, na prática, negando-lhe o direito a um processo
justo.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) é clara: a pessoa com
deficiência tem direito a adaptações processuais. Mas como adaptar o que
não se vê? Como garantir direitos que permanecem ignorados?
Este não é um debate abstrato. Estamos falando de crianças separadas
de suas mães, de adolescentes institucionalizados desnecessariamente, de
vítimas de violência desacreditadas, de famílias destruídas por
decisões que não consideraram a totalidade da condição humana das partes
envolvidas.
É preciso criar um sistema que veja além do óbvio.
Que compreenda que a deficiência nem sempre vem com um laudo debaixo do
braço. Que reconheça que a verdadeira inclusão começa quando o sistema é
capaz de identificar e acolher quem mais precisa dele — mesmo quando
essa pessoa ainda não sabe que precisa.
Enxergar a deficiência que ainda não foi nomeada é um desafio
para todo o sistema. Mas é também uma condição básica para que a
decisão seja, de fato, justa.
* Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e
sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea
jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”,
citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e
Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como
ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como
palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ.
Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência,
com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.