Pesquisa foi realizada com 595 mães de crianças diagnosticadas com TEA – Transtorno do Espectro Autista
Artigo publicado no Journal Einstein chama atenção para uma questão que muitas vezes fica em segundo plano quando se fala sobre autismo: a saúde e o bem-estar de quem cuida.
O conteúdo é assinado por Patrícia Souza de Almeida, Carlos Eduaro Lins e Silva, Alisson Henrique de Almeida, Flávio Eloize de Souza e Silva, Rafael Mendes Ritti-Dias, Ozeas Lima Lins Filho e Breno Quintella Farah.
A pesquisa analisou a qualidade e a duração do sono de 595 mães de crianças e adolescentes diagnosticados com TEA – Transtorno do Espectro Autista. A idade média das mães era de 37 anos, enquanto as crianças e adolescentes tinham, em média, 8,1 anos.

O resultado é expressivo: 44% das mães relataram qualidade ruim do sono, enquanto 70,4% não dormiam entre sete e nove horas por noite, faixa considerada recomendada no estudo.
Mais do que dormir pouco
A pesquisa não avaliou apenas quantas horas as mães dormiam. Os pesquisadores também investigaram características demográficas, informações relacionadas aos filhos, condições de saúde e hábitos de vida.
Entre os fatores associados à pior qualidade do sono estavam não ser casada, presença de doença cardíaca, sintomas de depressão, comportamento sedentário durante a semana, insatisfação com a terapia do filho e duração inadequada do sono.
Um dos resultados que mais chama atenção é a associação entre dormir menos do que o recomendado e apresentar pior qualidade do sono: as mães com duração inadequada do sono apresentaram maior probabilidade de também relatar baixa qualidade do descanso.
Depressão aparece entre os fatores associados
Os sintomas de depressão também aparecem de maneira importante nos resultados.
Segundo o estudo, eles estiveram associados tanto à pior qualidade do sono quanto à duração inadequada do sono.
Isso reforça a importância de olhar para a mãe — e para o cuidador — como alguém que também precisa de atenção dentro da rede de cuidados.
Quando uma família recebe um diagnóstico de autismo, é comum que a discussão se concentre imediatamente na criança: diagnóstico, terapias, escola, medicamentos, desenvolvimento, inclusão e direitos. Mas existe uma pergunta que também precisa ser feita:
Quem está cuidando dessa criança está conseguindo cuidar de si mesmo?
A rotina também pesa
O estudo encontrou associação entre comportamento sedentário durante os dias da semana e pior qualidade do sono.
Também apareceu uma relação entre a satisfação das mães com a terapia dos filhos e a qualidade do próprio sono. Mães que relataram insatisfação com a terapia apresentaram maior probabilidade de ter sono ruim.
Esse resultado é particularmente importante porque mostra que a experiência da família não pode ser analisada apenas pelo número de terapias oferecidas.
A qualidade e a adequação do atendimento também podem fazer parte da realidade vivida pelos cuidadores.
E quando há mais de uma criança autista?
A pesquisa também encontrou associação entre a duração inadequada do sono e o número de filhos com TEA.
O número total de filhos também apareceu associado à duração do sono.
Isso ajuda a mostrar que a realidade das famílias é diferente e que políticas públicas e serviços de apoio precisam considerar a complexidade da rotina familiar, e não apenas a condição individual da pessoa autista.
Um alerta para toda a rede de atendimento
Os pesquisadores concluem que a maioria das mães avaliadas apresentava qualidade ruim do sono e/ou duração inadequada do sono, e que fatores demográficos, relacionados aos filhos, condições clínicas, sintomas depressivos e comportamento sedentário estavam associados aos problemas de sono.
O estudo, entretanto, é transversal. Isso significa que ele identifica associações entre os fatores analisados, mas não permite concluir, sozinho, que um determinado fator seja necessariamente a causa do problema de sono.
Uma questão que precisa entrar no debate sobre autismo
Os números apresentados pela pesquisa levantam uma discussão que vai além do sono. Cuidar também precisa significar cuidar de quem cuida.
Uma política pública voltada às pessoas autistas não pode ignorar a realidade das famílias. Acesso a diagnóstico, terapias, educação inclusiva, assistência social e direitos são fundamentais — mas o cuidador também precisa ter acesso a apoio, orientação e atenção à própria saúde.
ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM: https://journal.einstein.br/ – https://journal.einstein.br/article/factors-associated-with-sleep-quality-and-duration-in-mothers-of-children-with-autism-spectrum-disorder-a-cross-sectional-study/
Fonte https://diariopcd.com.br/artigo-cientifico-revela-impacto-do-sono-na-rotina-de-maes-de-criancas-autistas/
Postado Pôr Antonio Brito
Nenhum comentário:
Postar um comentário