Celebrada
em 18 de junho, data reforça a importância da inclusão, do respeito à
neurodiversidade e do acesso a suporte especializado para pessoas
autistas e suas famílias
O Dia Mundial do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, surgiu
como um movimento internacional para promover o respeito à
neurodiversidade e combater estigmas que ainda cercam o Transtorno do
Espectro Autista (TEA). Mais do que conscientizar sobre o diagnóstico, a
data propõe uma reflexão sobre como a sociedade acolhe ou exclui
pessoas autistas em diferentes fases da vida.
Nos últimos anos, o número de diagnósticos aumentou em todo o mundo.
Dados mais recentes dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC)
apontam que aproximadamente 1 em cada 31 crianças de 8 anos é
identificada com TEA nos Estados Unidos, uma prevalência
significativamente maior do que a observada há duas décadas. O
crescimento está relacionado principalmente ao avanço dos critérios
diagnósticos, maior conhecimento sobre o transtorno e ampliação do
acesso à avaliação especializada.
No Brasil, o Censo Demográfico do IBGE 2022 apontou que 2,4 milhões
de pessoas estão dentro do espectro autista, com prevalência em homens
(1,4 milhão). Ainda assim, especialistas alertam que o diagnóstico, por
si só, não garante inclusão, desenvolvimento ou qualidade de vida.
Para a neuropsicopedagoga especialista em autismo e desenvolvimento
infantil Silvia Kelly Bosi, o Dia do Orgulho Autista representa uma
oportunidade de ampliar o debate para além das limitações frequentemente
associadas ao transtorno.
“O orgulho autista não significa negar desafios ou dificuldades.
Significa reconhecer que pessoas autistas têm formas próprias de
perceber, interpretar e interagir com o mundo. Quando a sociedade passa a
compreender essa diversidade, criamos ambientes mais inclusivos,
reduzimos preconceitos e favorecemos o desenvolvimento de
potencialidades que muitas vezes permanecem invisíveis”, afirma.
Segundo ela, ainda existe uma visão excessivamente centrada no diagnóstico.
“Receber o laudo é importante, mas ele não pode ser o ponto final
da jornada. Muitas famílias enfrentam dificuldades para acessar
terapias, suporte educacional e profissionais capacitados. O verdadeiro
desafio começa depois do diagnóstico, quando é necessário garantir
oportunidades reais de desenvolvimento e participação social”, destaca.
Inclusão ainda é um desafio
Embora a conscientização sobre o autismo tenha avançado nos últimos
anos, a inclusão efetiva continua distante da realidade de muitas
famílias.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com
organizações ligadas à causa revelou que grande parte dos familiares de
pessoas autistas ainda relata dificuldades relacionadas ao acesso à
educação inclusiva, atendimento especializado e inserção social.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan, um dos maiores
obstáculos continua sendo a compreensão limitada sobre o que significa
viver dentro do espectro.
“Muitas pessoas acreditam que inclusão é apenas permitir a
presença do indivíduo autista em determinado ambiente. Na prática,
inclusão significa criar condições para que ele participe, se comunique,
aprenda e seja respeitado em suas particularidades. Isso exige
adaptações, acolhimento e mudança de mentalidade”, explica.
A especialista ressalta que o impacto do preconceito pode ser significativo para a saúde mental.
“Quando uma criança ou adolescente cresce ouvindo que precisa
agir exatamente como os outros para ser aceito, existe um risco maior de
sofrimento emocional, ansiedade e baixa autoestima. O orgulho autista
surge justamente como uma resposta a essa lógica, reforçando que
diferenças não precisam ser corrigidas para terem valor”, afirma.
Respeitar as diferenças não significa ignorar as necessidades
O movimento da neurodiversidade tem ganhado força ao defender que
diferenças neurológicas fazem parte da diversidade humana. No entanto,
especialistas ressaltam que reconhecer capacidades e respeitar
singularidades não significa ignorar necessidades de suporte.
A psiquiatra Fabricia Signorelli explica que o debate precisa ser equilibrado.
“Existe um avanço importante na compreensão de que pessoas
autistas não devem ser definidas exclusivamente por suas dificuldades.
Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que muitas enfrentam desafios
significativos relacionados à comunicação, autonomia, interação social e
saúde mental. Valorizar a identidade autista não elimina a necessidade
de apoio especializado quando ele é necessário”, afirma.
Segundo a médica, transtornos de ansiedade, depressão e sofrimento
psíquico podem ocorrer com maior frequência quando barreiras sociais e
preconceitos se acumulam ao longo da vida.
“A inclusão não é apenas uma questão de direitos. Ela também é
uma estratégia de promoção da saúde mental. Ambientes acolhedores e
acessíveis contribuem diretamente para o bem-estar e para a qualidade de
vida das pessoas autistas”, acrescenta.
Autonomia e participação devem estar no centro das discussões
Para a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, um dos principais
avanços dos últimos anos foi a ampliação das discussões sobre
independência e protagonismo das pessoas autistas.
“Durante muito tempo, o foco esteve apenas na redução de
comportamentos considerados inadequados. Hoje entendemos que o mais
importante é oferecer recursos para que a pessoa desenvolva autonomia,
participe da comunidade, construa relações e tenha qualidade de vida de
acordo com suas próprias características e objetivos”, explica.
A especialista destaca que pequenas adaptações podem gerar impactos significativos na rotina.
“Quando pensamos em acessibilidade, muitas pessoas imaginam
apenas estruturas físicas. No caso do autismo, também estamos falando de
adaptações sensoriais, comunicacionais e sociais. Ambientes mais
previsíveis, comunicação clara e respeito às necessidades individuais
podem fazer toda a diferença na participação e no bem-estar”, afirma.
Uma data para celebrar e refletir
Criado por pessoas autistas e organizações ligadas ao movimento da
neurodiversidade, o Dia Mundial do Orgulho Autista busca promover uma
mudança de perspectiva: em vez de enxergar o autismo apenas sob a ótica
das limitações, a proposta é reconhecer diferentes formas de pensar,
aprender e interagir.
Para as especialistas, a data é um convite para que famílias,
escolas, empresas e a sociedade como um todo avancem da conscientização
para a inclusão efetiva.
“O orgulho autista nasce do reconhecimento de que cada indivíduo
tem valor independentemente de suas diferenças. Quando deixamos de focar
apenas no que a pessoa não consegue fazer e passamos a enxergar suas
potencialidades, damos um passo importante para construir uma sociedade
mais justa, acolhedora e verdadeiramente inclusiva”, conclui Silvia Kelly Bosi.
Fonte https://diariopcd.com.br/especialistas-defendem-mudanca-de-olhar-da-sociedade-e-alertam-para-desafios-que-persistem-apos-o-diagnostico-do-tea/
Postado Pôr Antônio Brito