Interesse
pelo futebol, troca de figurinhas e atividades temáticas ajudam no
desenvolvimento de habilidades sociais; especialistas orientam famílias
sobre quebra de rotina e excesso de estímulos
A Copa do Mundo costuma mobilizar emoções, conversas e atividades
coletivas em escolas, famílias e grupos de amigos. Para crianças e
adolescentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse período pode
representar tanto desafios relacionados às mudanças na rotina e ao
excesso de estímulos quanto oportunidades reais para desenvolver
habilidades sociais, comunicação e regulação emocional.
Segundo especialistas do GAIADI – Grupo de Avaliação e Intervenção
dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil, em Ribeirão Preto (SP), o
interesse pelo futebol e pelos eventos ligados à competição pode ser
utilizado de forma positiva no cotidiano, desde que as experiências
sejam planejadas e respeitem as características de cada criança.
Para a psicóloga Giovanna Bim Sebastiani, eventos de grande
mobilização têm potencial para favorecer interações sociais de maneira
mais espontânea. “A Copa cria situações em que crianças e adolescentes
autistas podem se engajar socialmente a partir de um interesse
genuinamente compartilhado, sem que a interação seja o foco explícito da
situação. Isso reduz a pressão interpessoal e favorece um aprendizado
mais próximo do cotidiano real”, explica.
Ela ressalta, porém, que não existe uma fórmula única. “O espectro
autista é heterogêneo, e para muitos jovens esses mesmos eventos
representam sobrecarga sensorial e emocional. O que faz a diferença não é
o evento em si, mas o uso intencional e planejado dele, considerando o
perfil individual de cada pessoa”, afirma.
Interesse em comum favorece interação
Atividades típicas desse período, como colecionar figurinhas,
conversar sobre os jogos, participar de bolões ou de ações temáticas nas
escolas ou no trabalho, podem criar oportunidades naturais para o
desenvolvimento de habilidades sociais.
A aplicadora ABA Marina Matos de Oliveira explica que interesses
compartilhados funcionam como uma ponte para a comunicação. “Ao partir
de algo que já desperta interesse na pessoa, é possível aumentar o
engajamento, fortalecer a motivação e trabalhar habilidades como atenção
compartilhada, manutenção de conversas e respeito ao turno de fala.
Também é uma oportunidade para estimular a expressão de opiniões,
preferências e emoções”, comenta.
Segundo ela, atividades como a troca de figurinhas estimulam
iniciativa social, negociação e interação entre pares. “Quando a
atividade é significativa e prazerosa, a participação acontece com mais
segurança, e isso abre espaço para desenvolver habilidades sociais,
comunicação funcional e sentimento de pertencimento”, diz.
Na avaliação de Giovana, essas situações funcionam como verdadeiros
roteiros sociais do cotidiano. “Pedir uma figurinha, oferecer outra,
negociar uma troca: são sequências simples, mas que treinam iniciação de
conversa, reciprocidade e manutenção de tópico de forma
contextualizada. O aprendizado em contextos com motivação real tende a
ser mais duradouro e funcional”, explica.
Mudanças na rotina exigem atenção
Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo também pode trazer desafios. Horários
alterados, suspensão de atividades, comemorações, visitas e ambientes
mais movimentados podem gerar ansiedade e dificuldades de adaptação.
“Os desafios mais comuns costumam estar ligados à quebra de
previsibilidade. Muitas pessoas autistas se organizam melhor quando a
rotina é estável. Mudanças como horários diferentes, viagens, barulho
extra e maior movimentação podem gerar ansiedade, irritabilidade e
dificuldade de adaptação”, explica Marina.
Além disso, comemorações com sons altos, fogos, telas, músicas e
aglomerações podem provocar sobrecarga sensorial. Para Giovana, pequenas
estratégias fazem diferença para minimizar esses impactos. “Protetores
auriculares, antecipação do ambiente por meio de fotos ou explicações e a
existência de um espaço mais tranquilo para pausas podem tornar a
experiência muito mais confortável”, orienta.
Aprender a lidar com vitórias e derrotas
As emoções despertadas pela competição também podem ser utilizadas
para ensinar tolerância à frustração e flexibilidade diante de
resultados inesperados.
“Tolerância à frustração não é algo que se desenvolve
espontaneamente. Ela precisa ser ensinada de forma gradual. Antes do
jogo, por exemplo, a família pode conversar sobre os diferentes
resultados possíveis, inclusive os negativos. Antecipar essas situações
reduz o impacto emocional quando elas acontecem”, explica Giovana.
Para Marina, a participação deve acontecer sem pressão e respeitando o
ritmo de cada criança. “Nem toda criança vai querer acompanhar tudo da
mesma forma, e isso precisa ser respeitado. Quando a participação
acontece de forma gradual, com apoio e sem exigência excessiva, a
experiência tende a ser muito mais positiva”, afirma.
Segundo as especialistas, quando bem mediada, eventos como a Copa do
Mundo podem se transformar em uma oportunidade de conexão, pertencimento
e aprendizado emocional. “O mais importante é que esses momentos sejam
vividos de forma acolhedora e inclusiva, e não como uma fonte de
sobrecarga”, conclui Marina.
Fonte https://diariopcd.com.br/copa-do-mundo-e-oportunidade-para-trabalhar-socializacao-e-lidar-com-frustracoes-no-autismo/
Postado Pôr Antônio Brito