Especialistas e famílias apontam barreiras persistentes e destacam iniciativas inclusivas como caminhos possíveis
Apesar de avanços em
políticas públicas e no debate sobre inclusão, o acesso à cultura ainda
está longe de ser universal no Brasil. Para milhões de pessoas com
deficiência, frequentar espaços culturais, assistir a espetáculos ou
participar de atividades artísticas segue sendo um desafio marcado por
barreiras estruturais e, principalmente, comunicacionais.
Dados preliminares do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que o país tem
14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 7,3% da
população com dois anos ou mais. O levantamento também identificou, pela
primeira vez, 2,4 milhões de pessoas com autismo, ampliando a
compreensão sobre a diversidade de públicos que demandam acessibilidade.
Na prática, no entanto, a inclusão cultural ainda não acompanha esses
números. Vivian Maria Pereira Hartung Toppam é mãe de dois jovens
surdos, Victor Orlando Poli, de 21 anos, e Vagner Matheus Poli, de 20.
Ela relata as dificuldades enfrentadas no dia a dia. “As principais
dificuldades que enfrento são a falta de acessibilidade em Libras e a
pouca divulgação de eventos que realmente estejam preparados para
receber pessoas surdas. Muitas vezes até existem atividades culturais,
mas não há intérprete de Libras, legendas ou recursos visuais adequados.
Além disso, o custo e a distância também podem dificultar a
participação, principalmente quando precisamos nos deslocar para outras
cidades em busca de eventos acessíveis.”
Segundo ela, o problema não está apenas na ausência de recursos, mas
na forma como a inclusão é pensada. “Na minha experiência, ainda não
estão totalmente preparados. Houve avanços, mas ainda falta muito. Falta
acessibilidade comunicacional, formação dos profissionais para lidar
com pessoas com deficiência e uma maior conscientização sobre inclusão.
No caso das pessoas surdas, é fundamental ter intérprete de Libras,
materiais visuais e atendimento sensível às nossas necessidades. A
inclusão precisa ser pensada desde o planejamento do evento, e não
apenas como algo complementar.”
Para o músico e educador Welton Nadai, responsável pelo Instituto
Lumiarte, a cultura precisa avançar para além do discurso. “A gente
entende que a arte precisa ser para todos. Ainda há uma distância entre o
que se fala sobre inclusão e o que de fato é oferecido nos espaços
culturais. É preciso pensar acessibilidade como parte essencial da
criação artística.”
Nesse cenário, iniciativas específicas têm buscado preencher lacunas.
Um exemplo é o Acessart, desenvolvido pelo Instituto Lumiarte, que
propõe experiências artísticas adaptadas, como espetáculos com Libras,
audiodescrição e exposições táteis. Para Nadai, ações como essa
demonstram que a inclusão é viável quando incorporada desde a concepção
dos projetos.
A importância dessas iniciativas é reforçada por quem vivencia a
exclusão. “Eu avalio como extremamente importante. Iniciativas como essa
promovem inclusão, dão visibilidade às pessoas com deficiência e
garantem o direito de participar da vida cultural da sociedade. Para
famílias como a minha, essas ações representam oportunidades reais de
aprendizado, socialização e valorização da identidade das pessoas
surdas. Também ajudam a sensibilizar a sociedade sobre a importância da
acessibilidade”, afirma Vivian.
O impacto também se reflete no desenvolvimento das crianças.
“Projetos acessíveis impactam de forma muito positiva a vida e o
desenvolvimento cultural dos meus filhos. Eles se sentem incluídos,
valorizados e capazes de participar como qualquer outra criança. Além
disso, essas experiências ampliam o conhecimento, estimulam a
criatividade, fortalecem a autoestima e contribuem para o
desenvolvimento da linguagem e da identidade cultural surda. Quando há
acessibilidade, meus filhos não apenas assistem, mas realmente
compreendem, se envolvem e aprendem.”
CONHEÇA O ACESSART
O Acessart é um projeto pioneiro voltado para a inclusão cultural,
desenvolvido com o objetivo de levar a arte às pessoas com deficiência,
criando e adaptando produções artísticas que garantam acessibilidade. A
proposta central do Acessart é democratizar a experiência artística,
fazendo com que todos possam acessar e desfrutar das mais diversas
manifestações culturais, independentemente de suas limitações físicas,
visuais, auditivas ou motoras.
Saiba mais sobre o projeto: https://www.institutolumiarte.org/acessart
Fonte https://diariopcd.com.br/acesso-a-cultura-ainda-exclui-milhoes-de-pessoas-com-deficiencia-no-brasil/
Postado Pôr Antônio Brito