Em
mostra no Ateliê397, artista tensiona arquitetura e a lógica da
eficiência ao ocupar espaço com intervenções que forçam o público a
recalibrar o próprio corpo
A artista Luiza Sigulem inaugura sua segunda exposição individual, Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro,
com abertura marcada para o dia 24 de janeiro de 2026, no Ateliê397, em
São Paulo. Reunindo um conjunto inédito de trabalhos, a mostra, com
curadoria de Juliana Caffé, tensiona a relação entre corpo, arquitetura e
o tempo, propondo o deslocamento como uma operação de ajuste e reflexão
crítica.
O projeto toma a instabilidade como condição que reorganiza a relação
entre corpo e arquitetura, produzindo um tempo que não coincide com a
lógica da eficiência. Em sintonia com a teoria Crip (termo reapropriado de cripple que nomeia práticas que deslocam o “corpo padrão”) e o conceito de crip time
— uma temporalidade que acolhe pausas, ritmos variáveis e o
não-alinhamento com o relógio produtivista —, o trabalho de Sigulem
afirma a diferença não como exceção, mas como método.
“Ao longo do meu processo, a falta de acessibilidade se manifestou no
tempo necessário para lidar com pequenos e grandes obstáculos e na
atenção exigida por ajustes mínimos que se acumularam de forma quase
imperceptível,” declara a artista. “Essa experiência deslocou a ideia de
eficiência e aproximou minha produção de uma noção de tempo expandido,
no qual o ritmo do corpo não coincide com a expectativa normativa da
reprodução capitalista. É nesse descompasso que o meu trabalho se
constrói.”
O projeto, que incorpora pela primeira vez vídeo-performances,
intervenções e uma escultura em diálogo com a fotografia, marca um
momento de expansão na trajetória da artista e coloca a acessibilidade
no centro da construção estética e poética. Também tensiona a
invisibilidade de uma parcela expressiva da população: segundo dados da
PNAD Contínua 2022 (IBGE), o Brasil possui cerca de 18,6 milhões de
pessoas com deficiência, das quais aproximadamente 3,4 milhões
apresentam deficiência física nos membros inferiores, contingente que
enfrenta diariamente as barreiras arquitetônicas discutidas na mostra.
Arquitetura e poética: uma inversão expositiva
O projeto nasce de um dado incontornável do contexto paulistano: a
dificuldade estrutural de encontrar espaços expositivos capazes de
acolher a investigação da artista de forma coerente com suas questões.
Diante da inexistência de alternativas viáveis e dos prazos
institucionais, a mostra abraçou esse limite como parte do projeto,
transformando-o em campo de reflexão.
“A escolha do Ateliê397 como sede da exposição responde a esse
contexto. Enquanto espaço independente, ele oferece uma abertura
conceitual e um campo real de negociação para a construção deste
projeto,” comenta a curadora Juliana Caffé. “Situado na Travessa Dona
Paula, em uma área marcada por importantes equipamentos culturais
igualmente limitados em termos de acessibilidade, o espaço é incorporado
pela exposição como elemento ativo, deixando de operar como suporte
neutro para integrar arquitetura, circulação e entorno ao campo de
discussão proposto.”
Diante dos limites arquitetônicos do Ateliê, Sigulem não trata a
falta de acessibilidade como obstáculo a ser corrigido, mas como
condição a ser trabalhada criticamente. A expografia opera uma inversão
deliberada: em vez de adaptar o espaço a um padrão normativo, é o
público que se vê levado a recalibrar seu corpo diante de passagens
reduzidas e escalas deslocadas.
Nesse sentido, a mostra apresenta uma instalação, desenvolvida pela
artista em colaboração com Messina | Rivas, que reúne dispositivos de
acessibilidade e permanência pensados como parte constitutiva da obra. A
intervenção reorganiza a recepção: a porta e o batente foram deslocados
para permitir abertura total (180°); bancos e banquinhos foram
distribuídos para acolher o repouso; e almofadas nos bancos externos
estendem a experiência para o entorno.
A radicalidade da proposta reflete-se na ocupação institucional: a
lateral da escada, que conduz a um segundo andar inacessível para
pessoas com deficiência, foi convertida em uma pequena biblioteca de
teoria Crip. “Durante a mostra, o Ateliê397 aceitou tornar o
andar superior inoperável, suspendendo seu uso como sala de projeção
para tornar explícito o limite arquitetônico em vez de ocultá-lo. E,
como desdobramento externo, o projeto inclui a produção e doação de
rampas móveis sob medida para espaços culturais vizinhos na vila,
provocando o circuito a pensar coletivamente suas condições de acesso”,
pontua Caffé.
O projeto se alinha a debates contemporâneos que buscam a
visibilidade sem captura, onde o trabalho opera por sensação, ritmo e
microeventos corporais que não se reduzem a uma imagem “explicativa” ou a
um conteúdo de fácil consumo. Trata-se de uma abordagem que reconhece o
acesso como estética e a deficiência como um diagnóstico do espaço e
das normas. Dessa forma, curadoria e expografia tornam-se parte ativa do
trabalho. Textos em Braille, audiodescrição e fototátil acompanham a
exposição, cujo funcionamento e mediação incorporam a contratação de
pessoas PcD, respeitando diferentes tempos de circulação.
Além disso, todos os dispositivos da mostra foram realizados com
materiais simples e de baixo custo, afirmando a possibilidade de
construir formas de acolhimento mesmo em arquiteturas que não atendem
plenamente às normas legais.
Corpo em negociação: vídeo, escultura e fotografia
Se em trabalhos anteriores Sigulem convidava o outro a se ajustar a determinadas escalas, a exemplo da série Jeito de Corpo (2024),
nesta individual a artista coloca o próprio corpo no centro da
experiência. Diferentes obras exploram esse deslocamento de perspectiva,
ora propondo situações em que o público é levado a reorientar sua
percepção espacial, ora acompanhando a artista em gestos de negociação
contínua com o espaço.
Os vídeos partem de releituras de performances históricas, realizadas
a partir do corpo da artista e atravessadas por questões de gênero e
potência. As ações não buscam fidelidade ao gesto original, mas operam
como tradução situada, na qual cada movimento carrega a marca de um
ajuste necessário. A câmera acompanha o processo sem corrigir o desvio,
permitindo que a falha e o esforço permaneçam visíveis.
É o caso da série inédita Rampas (2025), um conjunto de vinte fotografias derivadas do vídeo-performance Painting (Retoque) (a partir de Francis Alÿs).
No vídeo, a artista marca com tinta amarela pontos das ruas de São
Paulo onde deveriam existir rampas de acesso, evidenciando ausências de
acessibilidade na paisagem urbana. As fotografias isolam esses gestos e
vestígios, transformando a ação performática em imagens que registram a
fricção entre corpo, cidade e infraestrutura.
Ao adotar como referência a altura do campo visual de uma pessoa
cadeirante, a exposição desloca a escala normativa do espaço expositivo e
introduz um regime de percepção em que o corpo não se ajusta à
arquitetura, mas a arquitetura se torna índice de seus limites.
Uma escultura pontua o espaço, testando limites entre função e falha e
questionando estruturas pensadas para orientar o movimento. Em uma
instalação, um vídeo dedicado à imagem da queda articula sua repetição
como experiência física e simbólica. Em conjunto, as obras sugerem que
toda trajetória é atravessada por desvios, pausas e negociações, e que a
menor distância entre dois pontos, raramente se apresenta como linha
reta.
No dia 31 de janeiro de 2026, às 16h, o Ateliê397
realiza uma conversa entre Luiza Sigulem e a curadora e pesquisadora
Christine Greiner, propondo um diálogo em torno da teoria crip com os trabalhos apresentados na mostra.
A exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro integra o projeto Jeito de Corpo,
contemplado no EDITAL FOMENTO CULTSP PNAB Nº 25/2024, da Secretaria da
Cultura, Economia e Indústria Criativas, Estado de São Paulo.
SOBRE A ARTISTA
Luiza Sigulem é artista visual, formada em
Fotografia pelo Senac (2010). Seu trabalho investiga as relações entre
corpo, espaço e arquitetura a partir de experiências concretas de
circulação e adaptação, articulando fotografia, vídeo, intervenções
espaciais e performance. Em 2024, recebeu o Prêmio Funarte Marc Ferrez
de Fotografia. Em 2025, realizou uma exposição individual no Centro
Cultural São Paulo (CCSP). Foi premiada com aquisição no Salão Anapolino
de Arte. Participou de várias exposições coletivas. Vive e trabalha em
São Paulo.
SOBRE A CURADORA
Juliana Caffé é curadora e pesquisadora em arte contemporânea.
Doutora em Artes pela Universidade de São Paulo, possui especialização
em estudos curatoriais pela University of Cape Town (UCT) e pela PUC-SP.
Atualmente, é pesquisadora e pós-doutoranda no Museu de Arte
Contemporânea da USP (MAC USP). Sua prática articula pesquisa, curadoria
e processos colaborativos, com foco em arte latino-americana e história
das exposições, em diálogo com contextos do Sul global.
SOBRE O ESPAÇO
O Ateliê397, fundado em 2003, é um
espaço de intervenção cultural no circuito das artes, que promove ações,
projetos e experiências que incentivam a formação de outros olhares
para a produção contemporânea. CRIAR, FOMENTAR e DIVULGAR ações, obras e
pensamentos artísticos/experimentais no campo das artes plásticas: é
necessário abrir espaço para o dissenso, para obras e discursos que não
se enquadram nas agendas das grandes instituições museológicas e nem são
promovidos pelo mercado. Ser um espaço para livre expressão de novos
agentes é o objetivo central da programação do Ateliê397 que tem como
marcas a DIVERSIDADE e o PLURALISMO, sem abrir mão do rigor reflexivo e
da atitude crítica.
SERVIÇO
Exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro,
de Luiza Sigulem
Curadoria de Juliana Caffé
Expografia de Messina | Rivas
Abertura: 24 de janeiro de 2026, das 14h às 19h
Visitação: de 24 de janeiro a 28 de fevereiro de 2026
Quarta a sábado, das 14h às 18h
Conversa entre Luiza Sigulem e Christine Greiner
31 de janeiro de 2026 (sábado), às 16h
Local: Ateliê397
Travessa Dona Paula, 119A – Higienópolis, São Paulo
Entrada gratuita
atelie397.com
Fonte https://diariopcd.com.br/luiza-sigulem-prepara-nova-exposicao-individual/
Postado Pôr Antônio Brito